A pergunta que mais escuto no consultório quando iniciamos um tratamento com Tirzepatida, comercialmente conhecida como Mounjaro, é quase sempre a mesma.
O paciente olha para mim, animado com a perspectiva de emagrecer, mas com um fundo de preocupação e questiona se precisará usar a medicação para sempre. Existe um medo real e compreensível de ficar refém de um fármaco ou de recuperar todo o peso perdido assim que a última injeção for aplicada.
Essa dúvida não deve ser respondida com “achismos” ou promessas vazias. Precisamos olhar para os dados mais robustos que a medicina produziu até o momento. A obesidade não é uma questão de falta de caráter ou de força de vontade fraca. Trata-se de uma doença crônica, neuroendócrina e progressiva. O tratamento medicamentoso atua justamente nesses mecanismos biológicos falhos.
O estudo SURMOUNT-4
Para entender o que acontece no pós-tratamento, cientistas desenharam um estudo clínico muito elegante chamado SURMOUNT-4. O objetivo era claro e direto. Eles queriam observar o comportamento do peso corporal após a retirada da medicação em pacientes que haviam obtido sucesso inicial. Não se tratava de adivinhar, mas de medir com precisão estatística.
Todos os participantes utilizaram a Tirzepatida durante um período de 36 semanas. Nesse tempo, a perda de peso média foi expressiva, girando em torno de 20% do peso corporal total. Isso significa que um paciente de 100kg perdeu cerca de 20kg nesse período inicial. O resultado confirma a potência indiscutível da molécula.
Após essa fase de emagrecimento, os pacientes foram divididos em dois grupos distintos. O primeiro grupo continuou recebendo a medicação. O segundo grupo passou a receber placebo, ou seja, uma injeção sem efeito biológico, sem que eles soubessem. Essa divisão permitiu isolar o efeito da retirada do fármaco e observar a reação natural do organismo.
A realidade do reganho
Os resultados do grupo que interrompeu o tratamento trouxeram um alerta importante para a comunidade médica e para os pacientes. A maioria das pessoas que parou a medicação voltou a ganhar peso. A média observada foi um reganho de aproximadamente 50% de tudo o que havia sido eliminado ao final de um ano.
Vamos traduzir isso para números práticos para facilitar a visualização. Se você perdeu 20kg durante o tratamento e decidiu parar abruptamente, a estatística mostra que a tendência é recuperar cerca de 10kg nos meses seguintes. Esse dado derruba o mito de que o emagrecimento se sustenta sozinho apenas com “hábitos aprendidos” se a biologia não estiver ajustada.
No entanto, é fundamental notar que esse gráfico não representa uma condenação universal. Ele mostra uma média populacional. A biologia humana é diversa e nem todo mundo reage da mesma forma. Existem nuances importantes entre diferentes perfis de pacientes que o estudo também conseguiu identificar e que discutiremos a seguir.
Grupo 1: os mantenedores
Existe um grupo que chamamos de mantenedores. A análise dos dados mostrou que cerca de 17% a 18% dos pacientes conseguiram manter o peso perdido mesmo após a suspensão completa da Tirzepatida. Essas pessoas sustentaram o resultado sem o auxílio farmacológico contínuo.
Isso nos prova que existe, sim, uma possibilidade de desmame bem-sucedido para uma parcela dos indivíduos. Contudo, precisamos ser realistas e transparentes: este é um grupo minoritário. A grande maioria dos pacientes não se encaixa estatisticamente neste perfil de resposta natural.
Ainda estamos estudando quais são as características metabólicas e comportamentais específicas dessas pessoas. Elas provavelmente possuem uma flexibilidade metabólica maior ou mecanismos de saciedade mais preservados. Apostar todas as fichas que você fará parte dessa minoria sem acompanhamento médico pode ser uma estratégia arriscada.
Grupo 2: a recuperação parcial
O segundo perfil identificado no estudo é o mais comum e representa o cenário intermediário. Cerca de 50% dos pacientes recuperaram parte do peso, mas não tudo. Eles não voltaram ao peso inicial, mas também não mantiveram a magreza máxima alcançada no auge do tratamento.
Esse grupo vive numa espécie de limbo metabólico. Eles não perdem tudo o que conquistaram, mas assistem a uma regressão parcial dos resultados. Isso demonstra que, para metade das pessoas, a retirada da medicação deixa uma lacuna que o estilo de vida, por si só, tem dificuldade de preencher completamente.
A resposta aqui é individual e variável. Fatores como a qualidade da dieta, o nível de atividade física e o gerenciamento do estresse influenciam o quanto desse peso volta. Mas a tendência biológica de recuperação de reserva energética permanece ativa e operante.
Grupo 3: o reganho Intenso e o mito do efeito rebote
O terceiro grupo é o que mais nos preocupa e exige atenção redobrada. Aproximadamente 24% dos participantes recuperaram quase todo o peso perdido (mais de 75% do total). E um dado ainda mais alarmante: 9% ganharam mais peso do que tinham antes de começar o tratamento.
Muitos chamam isso erroneamente de efeito rebote do remédio, como se a medicação tivesse causado o ganho. Isso não é verdade. O remédio não causou o ganho, ele apenas deixou de proteger o corpo. Muitas dessas pessoas já vinham numa trajetória de ganho de peso progressivo antes do tratamento, e a doença apenas voltou ao seu curso natural.
A Tirzepatida funcionava como uma barreira de contenção. Ao retirar a barreira, a “água” da obesidade voltou a subir. Isso reforça a natureza da obesidade como uma condição que exige vigilância constante e, em muitos casos, tratamento contínuo para evitar a progressão da doença.
Por que o peso volta?
Você pode se perguntar por que o corpo insiste em recuperar a gordura. A resposta está na sobrevivência. O corpo humano possui mecanismos biológicos de defesa contra a perda de peso, que ele interpreta como uma ameaça à vida. Quando emagrecemos, nosso cérebro aciona um alarme.
Ao suspender a medicação, observamos o retorno imediato de sintomas conhecidos. Ocorre um aumento voraz da fome e uma queda significativa na saciedade natural. Além disso, o gasto energético do corpo diminui, ou seja, o metabolismo desacelera para poupar energia.
O fenômeno mais relatado é a volta do “food noise” ou ruído mental sobre comida. A Tirzepatida controla esses mecanismos com maestria. Quando interrompemos o uso, esses fatores retornam com força total, empurrando o paciente de volta aos hábitos antigos não por falta de vontade, mas por imposição biológica.
Obesidade: doença crônica exige tratamento crônico
Precisamos mudar a mentalidade de que tratar obesidade é como tratar uma infecção aguda, onde você toma um antibiótico por 10 dias e está curado. A obesidade assemelha-se mais à hipertensão ou ao diabetes. É uma doença crônica. Se você para o remédio da pressão, a pressão sobe. Se para o da obesidade, o peso tende a subir.
O estudo SURMOUNT-4 ilustra o óbvio da medicina moderna. Quando tratamos uma doença crônica como tal, os resultados permanecem. Quando interrompemos o tratamento acreditando numa cura mágica, a doença volta a se manifestar. A biologia vence a força de vontade na maioria das vezes.
Isso não significa que você é refém do medicamento. Significa que você tem uma ferramenta poderosa que oferece previsibilidade e controle. Aceitar a cronicidade da doença é o primeiro passo para manter a paz mental e o corpo saudável a longo prazo.
Qual a melhor estratégia para você?
A ciência nos mostra que a chance de manter o peso é muito maior se mantivermos o tratamento. Alguns conseguem parar, mas são minoria. Não existe certo ou errado absoluto, existe a estratégia individualizada que se adapta ao seu perfil e aos seus exames.
Não há fatores prévios que nos digam quem vai reganhar peso e quem não vai. Por isso, a decisão de continuar, diminuir a dose ou tentar o desmame deve ser tomada em conjunto com seu médico, com cautela e monitoramento. O objetivo não é apenas emagrecer, mas manter-se magro com saúde.
Se você está em tratamento ou pensa em começar, entenda que estamos lidando com a sua biologia, não apenas com sua estética. Eu posso te ajudar a navegar por essas decisões com base na ciência e na segurança.
Agende sua consulta e vamos traçar o plano ideal para o seu metabolismo.
